Adoro George Orwell, autor de 1984 e A Revolução dos Bichos. Veterano da Guerra Civil Espanhola e importante teórico de esquerda. Foi pioneiro na denúncia ao stalinismo além de escrever polêmicos artigos de jornal em sua época. Acabei esbarrando com esta pequena jóia nas minhas pesquisas. Como não sabia se uma versão em português existia no Brasil decidi traduzi-lo por conta própria. Trata-se de artigo escrito para o jornal londrino Tribune em 1944, a poucos meses do fim da Segunda Guerra Mundial. Orwell se pergunta por que é tão difícil obter uma definição objetiva do que é “Fascismo”. O que se segue é um dos textos mais interessantes, engraçados e propositalmente cínicos produzidos acerca desse tema tão espinhoso. Nem preciso dizer que, como quase tudo que Orwell escreveu, a discussão presente continua atual. As informações adicionais eu inseri entre parênteses, com o devido reconhecimento da ajuda prestada pela Wikipedia em alguns dos nomes e organizações que ele menciona. Espero que tenha ficado bom. Aqui está o endereço do site onde vocês podem achar a versão original
http://orwell.ru/library/articles/As_I_Please/english/efasc
O que é Fascismo?
George OrwellDe todas as perguntas sem resposta de nosso tempo, talvez a mais importante seja: O que é Fascismo?
Uma das organizações de pesquisa social da América recentemente fez essa pergunta a uma centena de pessoas diferentes, e conseguiu respostas que iam de “pura democracia” à “pura maldade”. Neste país, se você pede à pessoa pensante comum para definir o Fascismo, ele normalmente responde apontando para os regimes da Alemanha e da Itália. Mas isso é muito insatisfatório, porque mesmo os mais importantes estados Fascistas diferem bastante um do outro em estrutura e ideologia.
Não é fácil, por exemplo, inserir a Alemanha e o Japão no mesmo quadro, e mais difícil ainda fazê-lo com alguns dos estados menores que são descritos como Fascistas. É comum assumir, por exemplo, que o Fascismo é inerentemente belicoso, que se desenvolve sob uma atmosfera de histeria de guerra e só pode resolver seus problemas econômicos por meio de preparação para a guerra ou conquistas externas. Mas claramente isso não é verdade para, digamos, Portugal ou as várias ditaduras sul-americanas. Ou ainda, o anti-semitismo é considerado uma das marcas distintas do Fascismo; mas alguns movimentos Fascistas não são anti-semitas. Controvérsias experimentadas, reverberadas por anos a fio em revistas americanas, não foram nem ao menos capazes de determinar se o Fascismo é ou não uma forma de capitalismo. Mesmo assim, quando aplicamos o termo “Fascismo” a Alemanha ou ao Japão ou a Itália de Mussolini, nós sabemos de forma geral o que queremos dizer. É em política interna que esta palavra perdeu o último vestígio de significado. Pois se você examina a imprensa vai descobrir que não existe quase nenhum grupo de pessoas – certamente nenhum partido político ou corpo organizacional de qualquer tipo – que não tenha sido denunciado como fascista nos últimos dez anos. Aqui não estou me referindo ao uso verbal do termo “Fascista”. Estou falando do que vi publicado. Eu vi as palavras “simpático ao Fascismo”, ou “de tendência Fascista”, ou simplesmente “Fascista”, aplicada com toda a seriedade aos seguintes grupos de pessoas:
Conservadores: Todos os conservadores, defensores da pacificação ou contrários a ela (“appeasers or anti-appeasers”: refere-se aqui aos políticos britânicos que defendiam negociações com o Eixo antes da Guerra a fim de evitar a eclosão do conflito e aqueles que se opunham a manobras diplomáticas do tipo) são considerados subjetivamente pró-Fascistas. O mando britânico na Índia e nas Colônias é considerado indistinguível do Nazismo. Organizações que alguém poderia chamar de patrióticas e de tipo tradicional são rotuladas de “cripto-Fascistas” (“crypto-Fascists” – Fascistas disfarçados) ou “de mentalidade Fascista”. Exemplos são os Escoteiros, a Polícia Metropolitana, o M.I.5 (serviço secreto britânico), a Legião Britânica. Frase-chave: “As escolas públicas são celeiros (“breeding-grounds” – locais para a geração) do Fascismo”.
Socialistas: Defensores de um estilo antigo de capitalismo (exemplo, Sir Ernest Benn) argumentam que Socialismo e Fascismo são a mesma coisa. Alguns jornalistas católicos argumentam que os Socialistas têm sido os principais colaboradores nos países ocupados pelos Nazistas. A mesma acusação é feita por outro ângulo pelo partido Comunista durante suas fases de ultra-esquerda. No período de 1930-35 o jornal Daily Worker se referia habitualmente ao Partido Trabalhista como os Fascistas Trabalhistas (“Labour Fascists”). Isso é ecoado por outros extremistas de esquerda como os anarquistas. Alguns Nacionalistas Indianos consideram os sindicatos britânicos organizações Fascistas.
Comunistas: Uma escola de pensamento considerável (exemplos, Rauschning, Peter Drucker, James Burnham, F. A. Voigt) se recusa a reconhecer a diferença entre os regimes Nazista e Soviético, e defende que todos os Fascistas e Comunistas almejam aproximadamente a mesma coisa e são até certo nível as mesmas pessoas. Líderes no jornal The Times (pré-guerra) se referiram a U.R.S.S. como um “país Fascista”. Novamente, por outro ângulo, isso é ecoado por Anarquistas e Trotskistas.
Trotskistas: Comunistas acusam os Trotskistas propriamente, entenda-se a própria organização de Trotsky, de ser uma organização cripto-Fascista na folha de pagamento dos Nazistas (“in Nazi pay”). Acreditava-se amplamente nisso no campo de esquerda durante o período da Frente Popular. Nas suas fases de ultra-direita os Comunistas tenderem a aplicar a mesma acusação a todas às facções à esquerda deles, por exemplo o Common Wealth (partido socialista britânico) ou o I.L.P. (Independent Labour Party – outro partido socialista britânico).
Católicos: Fora de suas fileiras, a Igreja Católica é quase universalmente considerada pró-Fascista, tanto objetivamente como subjetivamente;
Resistentes à Guerra (“war resisters” – opositores à guerra): Pacifistas e outros que são anti-guerra são freqüentemente acusados não só de facilitarem as coisas para o Eixo, mas de se tornarem maculados por sentimentos pró-Fascistas.
Apoiadores da guerra: Resistentes à guerra normalmente baseiam suas acusações no argumento de que o imperialismo britânico é pior do que o Nazismo, e tendem a aplicar o termo “Fascista” a qualquer um que deseje uma vitória militar. Os simpatizantes da People’s Convention chegaram perto de afirmar que a disposição de resistir a uma invasão Nazista era um sinal de simpatias Fascistas. A Home Guard (organização de defesa britânica composta de mais de 1 milhão de voluntários, desqualificados para o serviço militar em parte por causa da idade avançada, e considerada a linha de defesa secundária do país,nocaso de uma eventual invasão nazista) foi denunciada como uma organização fascista assim que surgiu. Somado a isso, a totalidade da esquerda tende a igualar militarismo com Fascismo. Soldados politicamente conscientes em particular quase sempre se referem a seus oficiais como “de mente Fascista” (“Fascist-minded”) ou “Fascista natural” (“natural Fascist”). Academias militares (“Battle schools”), “cuspir e polir” (expressão que se refere à atenção com limpeza e á prática de polir as botas militares), a saudação de oficiais são todas consideradas condutoras ao Fascismo. Antes da guerra, alistar-se nos Territorials (força de reserva do exército Britânico composta de voluntários) era considerado um sinal de tendências fascistas. Convocação (“Conscription” – serviço militar obrigatório) e um exército profissional eram ambos denunciados como fenômenos fascistas.
Nacionalistas: Nacionalismo é universalmente considerado como inerente ao Fascismo, mas tal acusação é voltada contra os movimentos nacionais que o interlocutor em questão desaprova. Nacionalismo árabe, nacionalismo polonês, nacionalismo finlandês, o Partido do Congresso Indiano, a Liga Muçulmana, o Sionismo, e o I.R.A. (Irish Republican Army – Exército Republicano Irlandês) são todos descritos como fascistas mas não pelas mesmas pessoas.***Será visto que, como é usada, a palavra “Fascismo” é quase inteiramente desprovida de sentido. Em conversação, claro, é usada de maneira até mais alucinante que quando publicada. Eu já a ouvi aplicada a fazendeiros, lojistas, Social Credit (teoria econômica), punição corporativa, caça à raposa, touradas, o Comitê de 1922 (1922 Committee - mesa conservadora do Parlamento Britânico), o Comitê de 1941 (1941 Committee - grupo de políticos, escritores e outros indivíduos reunidos em 41 a fim de discutir os rumos da economia britânica durante o esforço de guerra), Kipling (Rudyard Kipling- romancista britânico), Gandhi, Chiang Kai-Shek, homossexualidade, as transmissões de Priestley (J. B. Priestley, novelista e radialista socialista inglês), Albergues da Juventude, astrologia, mulheres, cachorros e eu não mais o quê.
No entanto, por baixo de toda essa confusão de fato existe algum tipo de significado oculto. Para começar, é óbvio que existem muitas diferenças, algumas delas fáceis de apontar e difíceis de explicar, entre os regimes chamados de Fascistas e os chamados de democráticos. Segundo, se “Fascista” significa “simpático a Hitler”, algumas das acusações que eu listei acima são obviamente muito mais justificáveis do que outras. Terceiro, mesmo as pessoas que sem cuidado lançam a palavra “Fascista” em qualquer direção atrelam sob vários níveis uma significação emocional a ela. Por “Fascismo” elas querem dizer, no geral, algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista, anti-liberal e anti-classe-trabalhadora. Exceto pelo número relativamente pequeno de simpatizantes do Fascismo, quase todo indivíduo inglês aceitaria “bully” (valentão - pessoa violenta responsável por cometer atos de agressão físicos ou psicológicos contra outras, com o objetivo de intimidar) como um sinônimo para “Fascista”. Isso é aproximadamente o mais próximo de uma definição que esta palavra tão abusada conseguiu chegar.
Mas Fascismo é também um sistema político e econômico. Por que, então, não podemos ter uma definição clara e geralmente aceita do mesmo? Ah! Nós não teremos uma – não por enquanto, pelo menos. Dizer o porquê levaria muito tempo, mas basicamente porque é impossível definir o Fascismo de maneira satisfatória sem fazer certas admissões que nem os próprios Fascistas, nem os Conservadores, nem Socialistas de qualquer vertente (“of any colour”), estão dispostos a fazer. Tudo que alguém pode fazer por enquanto é usar a palavra com algum cuidado e não, como é comumente feito, degradá-la ao nível de um palavrão.
Nhaaaa!!!!! Finalmente li sua tradução - vc realmente precisa de uma beta =P
ResponderExcluirOrwell era genial, não? Apesar de datado, o texto é realmente excelente para termos uma noção da acepção que se tinha de "fascismo" aquela época.
Vc precisa divulgar esse blog para outras pessoas O.O